quarta-feira, 4 de junho de 2014

A LUTA DOS SERVIDORES PÚBLICOS PELOS SEUS DIREITOS EM CAMANDUCAIA

Antes de tudo, gostaria de dizer que ao invés de matéria, este texto é um artigo. Um artigo no qual me coloco em defesa dos servidores públicos municipais. Meu intuito era fazer uma matéria na qual eu me colocaria numa posição neutra e deixar as opiniões apenas do sindicato, do prefeito e do presidente da Câmara dos vereadores. Mas somente o presidente da Câmara respondeu às minhas perguntas.
Antes de eu colocar aqui as minhas opiniões, vou demonstrar a entrevista que realizei com o vereador Nenê do Supermercado. Outros vereadores eu procurei para ceder entrevista, porém quando eu disse de qual assunto se tratava me deixaram no vácuo. Foi como se eu tivesse falado de Jesus Cristo ao Capeta. Pois bem, lembrarei disso nas eleições. Abaixo, a entrevista com o vereador Nenê.
Danilo Santos: Primeiramente gostaria de agradecer pela entrevista que me concede. Bom, no último dia 28 participei da reunião do sindicato dos servidores públicos e pude colher deles algumas reivindicações. As auxiliares escolares, por exemplo, reivindicam o pagamento do triênio e do qüinqüênio. Por mais que haja reajuste salarial, sem esses direitos o valor que elas recebem sempre ficará defasado, principalmente se compararmos com o que recebem os contratados. O que a Câmara tem discutido a respeito dessa situação?
Nenê do Supermercado: A Câmara não se exime desta responsabilidade e no papel de representante do povo já se manifestou junto ao Executivo  quanto a esta questão, e em reunião com o executivo e vereadores e também as auxiliares escolares e os funcionários da obra também na mesma situação ficou acordado que o prefeito iria rever estas situações e no mais rápido possível resolver tal situação, porém, de acordo com a prefeitura ela não tem recursos  para arcar com este impacto financeiro no momento, no entanto se prontifica a rever a situação já que também tem interesse em resolver esta justa reivindicação de anos dos servidores. Por outro lado, mesmo a Câmara estando atenta, a execução de tal demanda não é pertinente do Legislativo e sim do Executivo.

Danilo Santos: O Estatuto do Servidor Público é da década de 1970, portanto, totalmente inviável à Constituição de 1988. A Câmara já cogitou retificá-lo?
Nenê do Supermercado: A retificação do Estatuto do Servidor Público não depende de uma decisão unilateral do Legislativo, mas de toda uma mobilização entre os poderes em conjunto com os servidores.

Danilo Santos: A Câmara já pensou em discutir a questão do desenvolvimento do Plano de Carreira das auxiliares escolares? Pelo que percebi, ele é falho e precisa de modificações.
Nenê do Supermercado: O desenvolvimento do Plano de Carreira das auxiliares escolares, sua iniciativa tanto de revisão quanto de criação compete ao Executivo, o que não impede de ser discutido por Esta Casa quando e se for apresentado.

Danilo Santos: Como tem sido a relação da Câmara com o sindicato dos servidores no que diz respeito à luta pelos direitos trabalhistas e melhores condições de trabalho? Pelo menos algum dos vereadores se interessa por participar das reuniões do sindicato ou procura conhecer a real situação do servidor público de Camanducaia?
Nenê do Supermercado: O sindicato iniciou seus trabalhos recentemente e nunca  foi solicitado a presença de algum vereador em suas reuniões. Não só um ou outro vereador, mas a Câmara num todo se interessa pela atual situação do servidor sim, e está aberta para auxiliar em suas reivindicações junto ao Executivo, desde que justas.

Danilo Santos: Muito obrigado pela entrevista, Nenê! Esperamos sempre contar com a sua opinião.


Como vocês puderam ler nas palavras do vereador, o Executivo “vai” rever a situação dos servidores. Não estou desacreditando, mas devemos acabar com a mania em Camanducaia de que tudo vai se resolver no futuro e nunca se resolve. Entra prefeito, sai prefeito, é tudo a mesma novela. E o maior absurdo, na minha opinião, é a de que a prefeitura não tem condições de andar em dia com os direitos dos servidores! Direito é direito! Como que para os servidores que ganham pouco mais que salário mínimo seus direitos são inviáveis aos cofres públicos, porém para vereadores, prefeitos e secretários os direitos andam em dia? Em menos de dois anos eles tiveram 40% de aumento, mais benefícios absurdos como gratificação natalina, que nada mais é que um eufemismo para 13º salário. Para resguardar os direitos deles não há empecilhos no orçamento. Muito bacana isso.

O caso de muitas auxiliares escolares e de creches, por exemplo, elas reivindicam direitos básicos como triênio e qüinqüênio. Cabe ressaltar que servidores efetivados que passaram em concursos, não estão sujeitos à CLT (Constituição das Leis Trabalhistas). Isso quer dizer que uma das únicas garantias pelas quais eles têm um pouco a mais no salário, é o triênio e quinquênio. Sem essas garantias, os reajustes acabam sendo medidas que não atendem as verdadeiras necessidades dos servidores, já que na prática o salário que recebem acaba ficando defasado. Para constar isso, basta comparar os holerites de servidores contratados com os dos servidores concursados. Por exemplo, um servidor contratado acaba ganhando o mesmo que um servidor concursado, mesmo ocupando a mesma função e tendo menos tempo de serviço.


Minha intenção não é criar atritos entre servidores contratados e concursados. Apenas estou comparando as distintas situações para compreendermos a situação de quem está a mais de 5 e 10 anos trabalhando sem ter os devidos direitos garantidos.
Agora eu gostaria de fazer umas indagações. Se não é possível aos cofres públicos garantir de imediato o triênio e o qüinqüênio de todos os servidores, por que é possível aos cofres públicos contratar adoidado e ainda garantir aos contratados os mesmos salários dos efetivados? Quais as artimanhas usadas para se fazer esta mágica? Não falo apenas desta administração, mas da arcaica política histórica-administrativa camanducaiense. São problemas que não devemos deixar para o futuro. Temos que resolver agora, pois em Camanducaia o futuro é utópico.

Eu tenho algumas hipóteses. Consegui dois holerites para comparar a situação. Os dois holerites são de servidores concursados, sendo um servidor com 2 anos de tempo e o outro com mais de 5. Um recebe o qüinqüênio e o outro recebe um tal de “complemento”. O complemento, dizem que é para que o servidor não ganhe menos que o salário mínimo, já que por lei ninguém pode ganhar abaixo do mínimo. Mas será que se andássemos em dia com os direitos dos servidores esses complementos seriam necessários? E será que o pagamento desses complementos não seria em detrimento do pagamento do triênio de outros servidores? Não sei responder, pois sou leigo em assuntos contábeis. Os que poderiam sanar as minhas dúvidas acabaram não respondendo as minhas perguntas.

Outra reivindicação das auxiliares escolares é a questão de ter que trabalharem em junho, enquanto as pedagogas sairão de férias. O que me chama a atenção é que as auxiliares de creches, por exemplo, não podem ocupar a função de pedagogas. Isso seria desvio de função. Mas infelizmente é isso que vem acontecendo nas creches, principalmente à tarde. Muitas auxiliares, na ausência das professoras, fazem a função das pedagogas porque se sentem “valorizadas”. Infelizmente muitas auxiliares pensam assim, sem passar pela cabeça que estão fazendo uma função de profissionais que ganham mais do que elas. Na prática isso é benéfico para a prefeitura, pois não precisaria contratar mais professoras. Para que contratar profissionais para cargos que exigem curso superior, se pessoas com o Ensino Fundamental estão fazendo o mesmo serviço e ganhando menos? Não seria um caso para os Excelentíssimos vereadores estarem averiguando?

Não sou adivinho, mas acredito que o Executivo já tenha pensado na hipótese de as auxiliares não quererem fazer as funções das professoras durante a Copa. Qual seria a solução? Colocar as contratadas no lugar das efetivadas. Pimba! Isso resolveria o problema. Ninguém vai se rebelar.

Para encerrar, apresentarei a minha opinião sobre as medidas que devem ser tomadas pra agora e não para o futuro. Em primeiro lugar, há que se formular outro Estatuto do Servidor Público. O nosso é da década de 1970, portanto, inviável à Constituição de 1988. O Estatuto é uma das principais garantias do servidor e sem ele estar atualizado, o servidor fica sem muitas alternativas de luta. Sua luta se torna mais burocrática sem o Estatuto. E neste quesito que se refere ao Estatuto, o vereador Nenê está certo. Há que se juntar os servidores, vereadores e prefeito para fazer um novo Estatuto. Mas o que eu percebo de problema é a falta de vontade política. Nem servidores, nem prefeito e nem vereadores correm atrás para formularem outro Estatuto. Isso há mais de 40 anos!!

Mais do que formular outro Estatuto, os servidores precisam se unir, se informar, conhecer os seus direitos básicos para que não sejam massa de manobra. Não pode se calar diante das injustiças e unidos o grito é mais retumbante. É a desunião dos servidores a sua maior fraqueza.


terça-feira, 13 de maio de 2014

EXISTE UM PROJETO VIÁVEL ÀS ESQUERDAS NO BRASIL?

Por: Danilo Santos

INTRODUÇÃO

A minha intenção em escrever este artigo é induzir um debate sério para compreendermos melhor a conjuntura atual, tanto política, quanto social e econômica no Brasil. Vemos atualmente no Brasil debates acalorados, mas nem sempre frutíferos entre a Esquerda e a Direita. Mas será que existe de fato uma Esquerda no Brasil? E se existe, qual é o projeto de Revolução dessa Esquerda?

Para melhor enriquecer esta discussão, vou abordar resumidamente 4 intérpretes brasileiros, respeitando a historicidade de suas obras: Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso.

N.W Sodré

Indo direto ao assunto, Sodré era do PCB e escreveu sobre a Tese Feudal. Sodré faz parte da categoria mais ortodoxa do marxismo (1920-1950). Importou métodos teóricos do marxismo lininismo/stalinismo. Ao analisar o Brasil, Sodré postulou que o entrave para o seu desenvolvimento e a Revolução, era o latifúndio. Para Sodré, a esquerda deveria se aliar à burguesia industrial para derrotar o latifúndio.

Sodré era da opinião de que o latifúndio, uma estrutura feudal, era o grande inimigo da burguesia industrial. A burguesia industrial, aliada ao proletariado, seria a única capaz de proteger a economia nacional do Imperialismo. O latifúndio seria aliado do Imperialismo. Num dado momento, com uma burguesia industrial consistente e já tendo derrotado o latifúndio, o proletariado seria o responsável pela Revolução Socialista. Após a estabilidade, a Revolução. Os interesses da burguesia industrial, para Sodré, estaria em consonância aos interesses do proletariado. Ambos queriam derrubar as forças conservadoras ligadas ao latifúndio e ao Imperialismo.

Caio Prado Jr.

Tendo Sodré como interlocutor, C.P Jr. irá contestar a Tese Feudal. Numa análise mais economicista, C.P Jr. dirá que no Brasil nunca houve feudalismo. Sempre houve relações capitalistas, sendo o próprio latifúndio inserido dentro das relações capitalistas. Logicamente que este olhar economicista de C.P Jr. é equivocado, pois ele exclui da sua análise aspectos culturais. Mas não entrarei neste assunto. O importante aqui é fazer uma comparação entre Sodré e Caio Prado.

Caio Prado já é menos otimista em relação a Sodré. Para ele, a burguesia industrial seria aliada aos conservadores, ao imperialismo e ao latifúndio, e não ao proletariado. Caio Prado diz que ao importar teorias que não se encaixam à realidade brasileira, Sodré cometeu um erro teórico que colocou em xeque a ação da Esquerda. De certa forma Caio Prado estava certo, pois em 1964 a burguesia industrial aliou-se às hipotéticas estruturas rivais do proletariado: ao latifúndio e ao Imperialismo. O capitalismo seria uma força que se adapta às realidades estruturais vigentes. Aqui no Brasil se adaptou à mentalidade conservadora e ao latifúndio. Para a burguesia não interessa a igualdade social, não interessa se politicamente um país é atrasado. O que interessa à burguesia é saber jogar dentro dessas estruturas para acumular dinheiro, por isso a burguesia coexistiu com o coronelismo e com o imperialismo. O próprio latifúndio estaria inserido dentro das relações capitalistas, e não feudais, como pensava Sodré. Isso porque o latifúndio sempre manteve relações comerciais exteriores. Caio Prado fala também do desenvolvimento industrial financiado pelos plantadores de café do Oeste Paulista. Resumindo, Caio Prado não vê a burguesia como aliada direta do proletariado e inimiga do latifúndio. Ela coexistiu com ele e se beneficiou dessa coexistência.

O próprio conceito de Revolução de Caio Prado é diferente ao de Sodré. Sodré via a Revolução como realizável num evento específico, no momento em que a burguesia e proletariado entrassem em choque direto com o latifúndio e o Imperialismo. Para Caio Prado, a Revolução deveria ser a longo prazo, com mudanças estruturais, e não num evento específico. E para que essa Revolução fosse viável, deveria haver melhor conhecimento da realidade brasileira. Era preciso estudar o passado de todas as estruturas para diagnosticar as continuidades e mudanças que ocorreram com o tempo. Era preciso que houvesse uma junção mais coerente entre teoria e ação, a teoria orientando a ação. Por isso a teoria teleológica de Sodré estava totalmente desconexa da realidade brasileira, pois estava orientando uma ação ao lado de uma estrutura que não era nem um pouco aliada ao proletariado.

Florestan Fernandes

Com o golpe de 1964, marxistas da linha de Sodré/PCB pagariam caro por terem empregado uma teoria que orientou mal a ação da Esquerda. Um dos ferrenhos críticos de Sodré seria Florestan Fernandes. Florestan Fernandes faz uma análise de Sodré quase parecida com a de Caio Prado. A diferença é que Fernandes trabalha melhor a teoria do que o Caio Prado. Ele demonstra os equívocos teóricos de Caio Prado, mas não entrarei neste tema porque não é fundamental neste artigo.

Para Florestan Fernandes, era essencial a ascensão da burguesia nacional para o Brasil se desenvolver. Primeiro ela deveria se libertar das forças que impediam o capitalismo, citando como exemplo a submissão à metrópole. A chegada da Família Real foi um dos primeiros eventos que favoreceram os interesses capitalistas, depois a Independência. A própria Independência representou os interesses da burguesia, mas esta ainda estava a mercê dos conservadores. A primeira Constituição do Brasil Independente corresponde aos interesses capitalistas e burgueses, mesmo que sendo apenas discursivamente. Na teoria o país adotava um discurso liberal, porém na prática faltava muito ainda para se tornar viável ao desenvolvimento capitalista. O próprio José Bonifácio reconheceu esta dificuldade, pois teoricamente era contra a escravidão, mas na prática era impossível aboli-la de imediato, levando em conta a realidade brasileira em todos os aspectos.

Florestan Fernandes analisa a evolução da burguesia. Analisa os eventos em que ela soube jogar sabiamente dentro das estruturas políticas em distintas realidades: às vezes se aliando aos conservadores, às vezes coexistindo e em alguns momentos entrando em choque direto. Faz um elogio às ações da burguesia no seu processo revolucionário. O que Florestan Fernandes não se conforma é o porque da burguesia ter se aliado ao Imperialismo. A burguesia, se quisesse, poderia e tinha condições de fazer importantes reformas estruturais na política, na economia e no social. Bom, agora vamos falar resumidamente de FHC.

Fernando Henrique Cardoso

Fernando Henrique Cardoso responderá às perguntas de Florestan Fernandes. FHC já vê a situação do golpe não com muito pessimismo, mas com otimismo. Para FHC, nunca houve uma burguesia nacional, uma classe que se identificasse em luta contra o Imperialismo e em favor da economia interna. Para FHC, a burguesia queria era se internacionalizar, pois isso faz parte da lógica capitalista. Faz parte do desenvolvimento capitalista relações internacionais.

FHC utiliza muito bem a Dialética marxista para compreender a realidade brasileira. Ele considera arcaica aquela discussão das esquerdas que pregavam a luta armada. FHC vê o nacionalismo como um discurso atrasado, levando em consideração a realidade do Brasil e da América Latina na década de 1960. Para ele, era impossível se desenvolver sem se tornar dependente do capital externo. Ele postulou a Teoria da Dependência & Desenvolvimento. Dentro da lógica da dependência, seria possível aumentar o desenvolvimento. Os países que se fechassem ao capital estrangeiro teriam dificuldades para se desenvolver.

Nota-se em FHC um pesquisador que se apaixonou pelo seu objeto de estudo. Recebeu pesadas críticas de Florestan Fernandes, seu antigo orientador, por falar em nome da burguesia. Ao tentar compreender a burguesia, FHC passou para outro lado da luta. Viu na dependência ao Imperialismo chances de desenvolvimento. Um país para se desenvolver precisa de capital na infra-estrutura, no desenvolvimento da Ciência e etc. Em certo momento, FHC vem em favor de Sodré, quando diz que houve sim uma aliança da burguesia ao proletariado contra o latifúndio. Cita como exemplo as décadas de 30 e 40, quando a burguesia ainda não se tornara forte e internacionalizada e queria acabar com o poder das oligarquias na política. Com a Revolução de 1930 e a crise internacional por conta da 2ª Guerra, a burguesia usou o Estado para benefício próprio. Com a vitória sobre as oligarquias, coexistiu com elas. Conforme foi cada vez mais se adaptando à Globalização, para a burguesia não interessa mais os discursos nacionalistas. Isso explica a queda de Vargas e de demais presidentes populistas. A burguesia quer o Estado livre para o capital internacional e será autoritária contra os que fazem discursos protecionistas.
Para FHC, cabe às classes oprimidas fazer igual a burguesia e saber jogar, mas para isso há que se conhecer, compreender as regras do jogo. Por isso é contra as teorias que não correspondem às realidades em jogo.

Considerações

Fiz o possível para enxugar e simplificar o texto. Nem coloquei aqui as citações, mas colocarei na bibliografia o pesquisador que orientou este artigo.

Em minha opinião, FHC é o mais lúcido no que diz respeito à análise da realidade brasileira. Ele faz um diagnóstico perfeito do contexto de 1960/70. O problema é que as classes dominantes souberam usufruir melhor dessas análises para seu próprio bem. O Estado é corporativo e burguês. Para este Estado não interessa a diminuição das desigualdades sociais. Não interessa às corporações hospitais e escolas públicas de qualidade. Quanto mais austeridade, melhor. O Estado só deve servir às corporações. Foi assim na crise de 2008 nos EUA, quando o Estado bancou a dívida dos bancos e especuladores: 900 bilhões de Dólares. Portanto, aquela velha discussão sobre defesa da economia nacional me parece fora da realidade em que vivemos. Cabe aos novos pesquisadores pensarem em outros meios e teorias que coloquem as classes oprimidas dentro de uma ação mais viável dentro da lógica capitalista. Estamos dentro do capitalismo e não há dentro desta lógica nenhuma probabilidade de sucesso o velho discurso revolucionário das décadas de 40/50/60. É isso que FHC quis dizer.

Logicamente que pensar num projeto que oriente a ação implica um conhecimento profundo do presente e do passado. Como bem disse Caio Prado, é uma revolução a longo prazo. Não é uma mera troca de presidente que irá mudar a situação do Brasil. São mudanças estruturais que visem melhor participação dos excluídos do sistema. É preciso saber jogar com as armas que se têm em mãos. É preciso saber se situar no campo de batalha.  

BIBLIOGRAFIA


REIS, José Carlos. As Identidades do Brasil: De Varnhagen a FHC. 9ª ed. FGV, 1999.  

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A SAÚDE PÚBLICA E A SÍNDROME DO "NÃO SEI" EM CAMANDUCAIA

Quando falamos em problemas com a saúde pública, o nosso cérebro automaticamente nos lança a resposta da causa: dinheiro. É o que sempre ouvimos dos políticos; se a saúde pública vai mal das pernas, é por falta de dinheiro. Pois bem, hoje falaremos de um problema maior e que já é epidemia aqui em Camanducaia: a Síndrome do “Não Sei”. A ironia é que tal epidemia afetou apenas os nossos vereadores. Justo eles!
Na teoria, é sabido que o papel do vereador é fiscalizar as ações do Executivo. O papel do vereador é levar a sua e a minha voz à oficialidade do poder. O vereador, mais do que qualquer outro agente social, tem o dever e a obrigação de visitar todos os setores públicos, em especificamente aqui me refiro aos hospitais e postos de saúde. Infelizmente os nossos vereadores não fazem isso. Por isso a Síndrome do “Não Sei” está disseminada em nosso meio político. Os vereadores não sabem, por exemplo, que médicos e enfermeiros não cumprem corretamente o plantão nos postos de saúde, porém recebem muito bem pelas horas que não trabalham. Os vereadores não sabem que faltam remédios e até outros itens básicos, como fitas glicêmicas, chegando ao cúmulo de uma paciente quase enfartando tendo que levar da própria casa para que recebesse um atendimento adequado.
Isso que estou lhes expondo não é invenção, não é uma historinha de ficção científica. É a realidade cotidiana nos postos de saúde. É parte de relatos de cidadãos que estiveram presentes na reunião da Câmara, no dia 03 de outubro de 2013. Eu estive presente pela primeira vez a uma reunião da nova legislatura. Fui à reunião justamente para acompanhar as reivindicações de moradores de Monte Verde, entre os quais estavam alguns parentes de cidadãos que morreram por omissão de socorro no posto de saúde do Distrito. Poderíamos ter evitado a morte desses cidadãos? Sim. Poderíamos ter evitado ao cobrar dos nossos vereadores para que eles cumpram com os deveres para os quais são muito bem pagos para executar, pois se eles fiscalizassem como “manda o Benedito”, haveria médico no posto de saúde quando um homem sofreu um enfarte. Bom, vamos expor os fatos.
Fez uso da tribuna livre o cidadão Vicente Forlenza Neto. Cidadão muito conhecido e polêmico, Vicente é odiado no meio político. Não quero aqui fazer uma análise moral deste cidadão, mas admito que concordo 100% com a postura tomada por ele na última reunião. Ele serviu de porta-voz dos familiares dos cidadãos que perderam seus entes queridos pela omissão de socorro. Vicente expôs os problemas dos postos de saúde, como eu disse, dos quais os vereadores nem fazem questão de saber que existem. Enquanto Vicente fazia sua explanação, alguns vereadores, demonstrando total indiferença, assinavam papéis, mexiam nos papéis, nas canetas e etc. Só não jogaram dominó porque deve ser proibido na Casa de Leis. Atrás do Vicente estavam os familiares dos falecidos.
Vicente começou sua explanação dando ênfase na questão orçamentária e financeira. Não vou falar disso aqui porque quero mostrar apenas a parte principal da questão. Vicente relatou o seguinte:
Em Camanducaia, recentemente faleceu a Sra Alcídia Siqueira da Silva, no dia 18/09/2013. Segundo relatos da família, a dona Alcídia começou a passar mal. Imediatamente solicitaram a presença de uma ambulância. Ao chegar à ambulância, a enfermeira pegou no pulso da dona Alcídia. Estranhamente, a enfermeira disse à família que voltaria em seguida e nunca mais compareceu. Depois de um tempo os familiares, desesperados, novamente entraram em contato com a Santa Casa, que informou não dispor de ambulância. A senhora veio a óbito e ficou por isso mesmo.
Depois Vicente relatou outro caso:
No dia 8 de setembro, a Sra. Noêmia Palma foi chamada, pois seu pai se queixava de fortes dores e seu irmão disse a ela que já havia solicitado uma remoção via ambulância, e a Santa Casa informou que não dispunha de nenhuma! Um atendente do hospital informou à Sra. Noêmia que ligasse ao almoxarifado da prefeitura, pois lá encontraria a enfermeira chefe e somente ela poderia autorizar ou não a liberação de um transporte! Após contatar um rapaz no almoxarifado e receber um monte de desculpas, resolveu apelar para uma vizinha e resolveu a questão do pai, transportando-o até à Santa Casa. Estranhamente dia 8 de setembro era um domingo! A prefeitura repassa mais de 100 mil [ 160 mil por mês] Reais por mês à Santa Casa para os doentes e enfermos receberem este tipo de tratamento? Está certo isso?? Esta Casa concorda com isso?? Enfermeira no almoxarifado em pleno domingo?? Ou ela não estava de serviço??
Depois Vicente relatou sobre uma gestante que fora mal diagnosticada e teve que ser levada às pressas pelos próprios familiares à Extrema, onde deu à luz duas horas depois de um médico em Camanducaia ter-lhe dito que retornasse sete dias depois. Para o médico daqui, as dores eram decorrentes de uma infecção, e não do prenúncio do parto. Depois metem o pau nos médicos cubanos! Lembrando que tudo o que Vicente relatou foi corroborado pelas testemunhas ali presentes, por pessoas as quais o tinha como seu porta-voz. Vicente também falou da falta de conhecimento do chefe de gabinete e da Secretária de Saúde em relação ao não funcionamento do compressor usado pelo dentista do posto de saúde de Monte Verde, que está inativo há 12 meses. Comunicação, eis um dos grandes problemas. Como pode nem prefeito, nem vereador e nem secretário de saúde ficar sabendo dessas coisas? Eu mesmo, ao ter conhecimento desses problemas dias antes da reunião, falei com o chefe de gabinete e lhe sugeri uma reunião com os funcionários dos PSF’s, já que muita coisa não está sendo corretamente filtrada para o prefeito e secretário de saúde. Como pode um médico não cumprir o plantão e não sofrer nenhuma punição? Até quando isso vai acontecer?
Dando continuidade, Vicente relatou mais um caso que infelizmente veio a óbito.
(...) Mas aí o esperado acontece! Um crime anunciado se concretizou! Crime este rotulado por omissão de socorro, por falta de médico de plantão, falta de uma enfermeira chefe, e falta de coordenadora de saúde. Estas informações são da família do Sr. Israel Nogueira de Macedo, que faleceu no último dia 27 nas dependências do PS de Monte Verde. Ele deu entrada no PS por volta das 11:40h e 2 horas depois ele morre nos braços de um desesperado filho, por falta de um médico para atender, sem a presença de uma enfermeira chefe para medicá-lo ou fazer uso de um desfibrilador e muito menos da coordenadora que NUNCA providenciou substitutos para os faltosos! A própria coordenadora só apareceu no PS por volta das 16:00h, pouco antes da chegada dos policiais militares que confeccionaram o BO na presença do filho do falecido, o Sr. Josmar Nogueira de Macedo.
Depois Vicente falou da justificativa da médica que faltou, na qual ela alegou ter sofrido uma queda e ter passado por uma cirurgia, mas sem antes avisar a coordenadora que acabou não providenciando um substituto. Segundo moradores de Monte Verde, a própria coordenadora pouco fica no PS.
Vicente falou da pouca importância dada à saúde, comparando com outros quesitos, como obras e eventos festivos. Assim que terminou a explanação do Vicente, o Presidente da Câmara passou a palavra para algum vereador que quisesse comentar, e o que percebi foi o total despreparo de todos os vereadores ali presentes para tratar de um assunto tão sério. Assim que o Presidente perguntou se alguém queria falar alguma coisa, o silêncio tomou conta; quase dava pra ouvir os grilos cantando lá fora. Eis que a vereadora Tânia tomou a palavra. Ela lamentou perante os familiares das vítimas e falou resumidamente, usando o famoso gerúndio no meio político, que é quando ouvimos coisas do tipo: “Estaremos providenciando”; tudo com “ando”. O presente não tem vez no meio político. Só se vive para o futuro, por isso somos afetados por outra síndrome: a Síndrome do Gerúndio. A vereadora falou de um projeto que está para ser concretizado, no qual haveria uma parceria entre prefeitura e Associação Beneficente de Monte Verde (ABMV). Uma parceria entre o setor privado e público. Bom, para quem quiser ficar mais por dentro, sugiro que procure a vereadora para uma explicação mais detalhada, já que ela própria não estava muito por dentro de como o projeto vai funcionar. É a Síndrome do Não Sei e do Gerúndio aqui presentes.
Para concluir, não poderia deixar de citar aqui mais um exemplo de indiferença dos vereadores para com as pessoas que estavam ali presentes. Após a vereadora Tânia fazer sua explanação, o Presidente simplesmente disse: “Vamos abordar outro assunto.” Pronto, aí foi “The End”. Nem os familiares das vítimas não entenderam, pois são pessoas que não estão acostumadas com a burocracia e o corporativismo existente na alma dos nossos políticos. O assunto se encerrou, pois mais nenhum vereador teve massa cerebral suficiente para opinar. Como eu já freqüentei muitas reuniões da Câmara, posso lhes dizer que um vereador dificilmente é o que diz ser fora da Casa de Leis. Aqui fora passa a imagem de ser batalhador das causas sociais, altruísta, mas lá dentro... lá dentro é um corporativo, como se fosse uma máquina. Pois foi isso que presenciei nesta reunião. Pessoas sendo tratadas com indiferença pelos vereadores.
Quero deixar bem claro que este meu artigo não tem como fim fazer nenhuma politicagem. Neste artigo eu não sou de oposição e nem da posição. Neste artigo sou um homem revoltado com o sistema. O conselho que dou a todos os leitores, é que cobrem seus direitos. Façam com que vereadores, prefeito e secretários cumpram com seus deveres. Cobrem! Vocês mesmos podem fiscalizar. Para isso vocês têm que conhecer seus direitos. Abaixo, disponibilizo um link de um artigo que escrevi sobre os direitos que você tem. Muito obrigado a todos!  




quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O COMBATE ÀS DROGAS EM CAMANDUCAIA: ENTREVISTA COM O POLICIAL MATHEUS PEREIRA GUIMARÃES

Na matéria anterior, sobre drogas, entrevistamos João Blota, o homem que venceu a luta contra o Crack. Autor de um livro autobiográfico, João Blota é uma das raras exceções de pessoas que conseguem vencer o vício depois de já estarem no fundo do poço. Como ele bem disse na entrevista, o problema com a droga só muda de endereço e personagem. A droga atinge todas as classes sociais. O tráfico é um dos negócios mais lucrativos do mundo, financiando poderes paralelos, como facções criminosas e terroristas mundo afora.

Há quem diga que a descriminalização da droga acabaria com esses poderes paralelos. Em alguns países, como Holanda e EUA, a maconha, por exemplo, já é encontrada em comércios legalizados. Na Holanda pode-se fumar um baseado tranquilamente e nos EUA há até refrigerantes da erva. Mas a pergunta é: será que a droga só produz o traficante? Não. A droga, mesmo sem o traficante, produz a dependência e o inferno de quem a usa. Dependência psíquica e física. A droga destrói casamentos, destrói a relação de pais e filhos, destrói a família. Não precisamos de dados estatísticos para constatar os males que a droga causa. Basta ter contato com um aluno- como eu já tive durante estágios na escola- usuário de maconha. Sua capacidade cognitiva decresce, seu raciocínio fica lento. Basta ter contato com um aluno que perdeu a mãe que era usuária de crack, e ver em seus olhos a tristeza em não ter mais os pais por perto. Tudo por conta de uma pedrinha feita com um pozinho branco.

Só quem convive com viciados sabe os males que a droga causa. Não precisamos das armas do traficante para transformarmos o mundo num caos. Basta apenas distribuir legalmente os pós e as ervas da morte. Ao fazermos isso, lotaremos as clínicas de dependentes químicos, deixaremos milhares e milhares de crianças órfãs, criaremos uma sociedade escravizada na sua própria mente. Uma sociedade que trocará o dia pela noite, em que de dia dormirá e à noite vai cheirar os pós e as ervas da morte. Imagine um mundo onde a droga seja encontrada em supermercados e farmácias. Pense nisso.

Hoje entrevistaremos o policial Matheus Pereira Guimarães. Matheus é escrivão na Delegacia de Polícia Civil de Camanducaia, mas também realiza interrogatórios quando o delegado não o faz. Procuraremos compreender o problema das drogas na visão de um agente social que tem como finalidade combater atos ilícitos, como o tráfico.

DANILO SANTOS: Matheus, primeiramente obrigado por estar me cedendo esta entrevista. Nossa intenção é levar informação às pessoas que convivem com os problemas ocasionados pelas drogas. Bom, para iniciar, gostaria de saber se no seu cotidiano de trabalho aparecem muitos casos de sujeitos envolvidos com o tráfico de drogas aqui em Camanducaia.

MATHEUS GUIMARÃES: Bom dia Danilo. Eu que agradeço a oportunidade de contribuir de alguma forma com um tema imensamente sério que atinge todas as camadas de nossa sociedade e gera grande impacto, de uma forma ou outra, sobre todos nós. Sim. Há muitos indivíduos envolvidos com o tráfico de drogas, não sendo raras as ocorrências neste sentido, geralmente envolvendo adolescentes, facilmente atraídos para o tráfico pela inimputabilidade que lhes é conferida pela legislação penal, por estarem em uma fase em que se encontram mais suscetíveis a novas experiências, positivas ou negativas, sendo facilmente “convencidos” pelos verdadeiros traficantes e pela relativa rentabilidade conferida pelo tráfico de drogas. Há, contudo, pelo menos em Camanducaia, poucos traficantes de maior porte, que fazem do tráfico de drogas uma escolha de vida e, ainda assim, não possuem nenhum poder financeiro e militar, como ocorre nas grandes cidades metropolitanas. O que se tem é uma imensa gama de pequenos traficantes, fato que facilita a disseminação das drogas e dificulta o trabalho da polícia.

DANILO SANTOS: Durante o meu período de estágio nas escolas, pude testemunhar a facilidade com que as drogas entram nessas instituições. Ao questionar os professores sobre isso, eles me diziam que não tomavam nenhuma iniciativa por medo de represálias por parte dos traficantes. Por acaso no seu trabalho aparecem casos de problemas com drogas em escolas? Cite os problemas e as drogas mais comuns em ralação ao espaço escolar.

MATHEUS GUIMARÃES: Sim. Infelizmente os jovens estão tendo contato cada vez mais cedo com as drogas e, para muitos, o primeiro contato ocorre justamente nas escolas. Começam a fazer uso de maconha, posteriormente ingressam no uso da cocaína e, na pior das hipóteses, tornam-se viciados em crack. Assim sendo, embora ainda seja pequeno o uso e venda de drogas nas escolas, comparando com toda a gama de ocorrências relacionadas à entorpecentes, este número vem crescendo cada vez mais. Há de se frisar que somente uma parcela dos casos de drogas nas escolas efetivamente chegam ao conhecimento da polícia, o que não é diferente nos demais casos de tráfico de drogas. 

DANILO SANTOS: Você poderia nos citar quais os espaços urbanos mais comuns aqui em Camanducaia onde se dão a maioria das ocorrências relacionadas às drogas? O que você sugere para sanar o problema?

MATHEUS GUIMARÃES: Os maiores pontos situam-se nas proximidades do “Bar do Moraes”, da “Lanchonete Nova Era”, do “Bar do Gaúcho” e nas tradicionais zonas periféricas da cidade: Bairro do Cruzeiro, Cemitério e da Uzina. Sugiro a instalação de câmeras de segurança em locais estratégicos, conhecidos pela venda e consumo de drogas, como medida preventiva, além de mais iluminação; maior rigor da Prefeitura Municipal no momento de concessão do alvará de funcionamento em estabelecimento em que é popularmente sabida a ocorrência de venda e consumo de drogas e; maior efetividade por parte da Polícia Militar na prevenção e fiscalização dos aludidos locais e da Polícia Civil na investigação dos crimes relacionados a entorpecentes; realização de campanhas de conscientização das polícias Civil e Militar e do poder público executivo, principalmente nas escolas.

DANILO SANTOS: As festas “raves” são muito conhecidas pelo alto consumo de cocaína e ecstasy. Aqui em Camanducaia são raras, porém já foram realizadas algumas. São festas nas quais o uso do ecstasy e cocaína faz com que o sujeito beba grande quantidade de água e bebidas alcoólicas, favorecendo assim lucros para os organizadores dessas festas. Neste sentido, a polícia toma alguma iniciativa em relação à fiscalização? Essa fiscalização se dá antes, durante ou depois do evento?

MATHEUS GUIMARÃES: É dever da polícia e dos órgãos do poder executivo realizarem a fiscalização antes, durante e depois do evento na seguinte lógica: A prefeitura municipal e o corpo de bombeiros analisam se estão presentes todos os requisitos legais e de segurança, a Polícia Militar realiza o trabalho ostensivo, preventivo fardado, para evitar a ocorrência de infrações durante o evento e a Polícia Civil realiza o trabalho de investigação, após a ocorrência do evento, de fatos de interesse criminal. Como eu conheço apenas uma festa Rave que se deu aqui em Camanducaia, antes do período em que ingressei na Polícia Civil, não sei informar se essa fiscalização realmente ocorreu.

DANILO SANTOS: Durante a sua formação na polícia, você teve treinamento para reconhecer sujeitos suspeitos de envolvimento com o tráfico ou como usuários. Você poderia citar algumas dicas sobre isso, com o intuito de informar os pais e a sociedade? Quais são as pistas encontradas tanto em sujeitos que traficam como em usuários?

MATHEUS GUIMARÃES: Os suspeitos, na visão da polícia, são pessoas que costumam freqüentar locais conhecidos como ponto de tráfico de drogas, que já tenham passagem pela polícia, que se comportam com “nervosismo excessivo” com a presença da polícia e que não estejam trabalhando, embora muitos traficantes têm o tráfico como fonte de renda secundária. Quanto aos sinais característicos dos usuários, depende da droga que estão usando. Embora não haja fórmula precisa, os sinais são observados, sobretudo, na mudança de comportamento, que como já dito depende do tipo e quantidade de droga consumida. De maneira geral passam a ter como amigos pessoas com envolvimento com o tráfico ou consumo de drogas, valendo a máxima popular “diga com quem tu andas que eu te direi quem tu és”; também freqüentam locais de uso e tráfico de drogas e se apresentam nervosos na presença da polícia (quando estão portando drogas para consumo); tornam-se dispersos e com pouca capacidade de concentração (uso de maconha) ou agressivos e agitados (uso de crack e cocaína). Os usuários de “crack”, droga altamente viciante e barata, já difundida em todas cidades brasileiras, além da pouca capacidade de concentração, agressividade, agitação, começam a perder peso, pois a droga tira a fome, e quase na totalidade dos casos, praticam pequenos furtos para sustentarem o vício, que se iniciam na própria residência do usuário. Como os sinais podem ser extremamente sutis cabe aos pais ficarem atentos às mudanças repentinas de comportamento de seus filhos, sobretudo na adolescência.

DANILO SANTOS: Em caso de suspeita de tráfico nas nossas ruas, como devemos proceder ao denunciar sem sofrermos represálias por parte dos traficantes? A nossa identidade é protegida pela polícia?

MATHEUS GUIMARÃES: Existe o telefone 181 do Disque Denúncia, em que é possível a notificação do fato criminoso sem a necessidade de identificação. Também é possível procurar a Polícia Civil e solicitar o sigilo, em uma conversa informal, no momento em que se noticia o fato criminoso. Esta “denúncia anônima” permite que os policiais civis passem a investigar o suposto traficante através de diligências preliminares, que pode ocasionar em Inquérito Policial. Também é possível que a informação seja levada informalmente à Polícia Militar, que dará mais “atenção” ao suposto traficante, dando busca pessoal se conveniente.

DANILO SANTOS: Matheus, muito obrigado pela entrevista que nos cedeu. Muito obrigado também à Polícia Civil de Camanducaia, que te autorizou a nos passar essas informações.

MATHUES GUIMARÃES: O prazer foi meu Danilo. Estou à disposição para maiores questionamentos.

LINK INDICADO PELO ENTREVISTADO:


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ENTREVISTA COM JOÃO BLOTA, O HOMEM QUE VENCEU A LUTA CONTRA O CRACK

O mundo das drogas é desesperador, um inferno. Só para quem convive com pessoas que são viciadas podem perceber que o uso de drogas não é tão inofensivo como alguns segmentos da indústria cultural e até movimentos pró-drogas querem nos passar. A droga não destrói somente o indivíduo viciado. Destrói também sua família e amigos. 
No começo, tudo parece diversão. Você vai numa festinha e vê seus amigos falando da “brisa louca”, do “bagulho da hora” que é dar um “teco num baseado”. Ou eles te falam também do barato que é cheirar algum produto que te dá a sensação de prazer, que te dá a capacidade de ficar na “nóia”. Você começa a usar, como se essas drogas não fossem causar nenhuma diferença na sua personalidade.
Você começa a se enturmar com os caras descolados, que te oferecem a droga. Se você não usa, passa a ser considerado um careta. Aí você começa a se influenciar pela indústria cultural. Se aquele rockeiro da minha banda favorita usava, por que eu não posso usar? Ele fazia músicas chapadas, muito loucas porque estava sob o efeito da maconha, ou da cocaína, ou da LSD e etc. Você começa a imaginar: “Que chapado seria ouvir um reggae estando na brisa!” Aliado ao incentivo corrompido da indústria cultural e dos “amigos”, você começa a dar uns “tecos”.
Aí você lê nos jornais que para se acabar com o crime é preciso descriminalizar o uso de drogas. Afinal de contas, há correntes de pensamentos que dizem que você é livre e pode usar o que quiser. Com a droga liberada, segundo essas correntes, não haveria o traficante, pois você encontraria a droga em qualquer comércio legalizado. Não haveria crime. Pois bem, esse pensamento parece muito inofensivo, mas como eu disse, é preciso conviver com pessoas que são livres para consumir, mas são escravas do consumo. São dependentes de produtos que lhes escravizam na alma, que lhes tiram o apetite, que lhes faz ficar violentas, que lhes faz sentir dor. Desse tipo de “liberdade” nenhuma corrente de pensamento pró-droga fala. Por isso conheceremos um pouco da vida de João Blota, o homem que venceu a luta contra o crack.
João Blota é autor do livro nóia, o poder tentador de nossas fraquezas. O livro é narrado em primeira pessoa, porém quem se encarregou de escrever as memórias de João Blota foi Rafael Junior. João Blota nos conta toda a sua vida, desde a infância até a vitória contra o vício. Foram 13 anos de uso contínuo dos mais variados tipos de drogas.
Nascido em janeiro de 1975, em São Paulo, João Blota começou a usar droga aos nove anos de idade. Por influência de um menino de 15 anos, cheirou benzina. Despejou um pouco do produto numa toalha e cheirou no banheiro. Gostou da sensação, da “nóia”. A partir da primeira experiência, começou a cheirar todos os dias. Como desculpa, pedia benzina para os familiares, dizendo que era para limpar cabeçotes de vídeo K7. Pronto, João poderia ficar na nóia quando quisesse e com uma boa justificativa: limpar os cabeçotes.
João não estava satisfeito. Queria experimentar outras drogas. Queria ser um viajante do mundo das “nóias”. Cheirava tudo pela frente, na busca de alucinações. No livro, João descreve as alucinações nos seus mínimos detalhes. Fala também da sua mudança de comportamento já no início do uso. Era um menino que vivia no banheiro e no quarto se drogando. Ele enfatiza também o vacilo da família, que não percebeu logo no início.
João foi evoluindo em relação ao uso das drogas, partindo dos produtos de limpeza, passando pela maconha, cocaína, álcool e muitas outras, até chegar na droga pela que se apaixonou: o crack. Fala também do cotidiano na escola, onde teve acesso aos “amigos” que o ajudaram no desenvolvimento da sua derrocada. Foi pela influência e contato com esses “amigos” que João teve acesso à “bocada” dos traficantes na favela, lugar onde passaria a fazer parte do seu cotidiano. Passou a trocar o dia pela noite. De dia, dormia e de noite ia para as festas em casas de jovens de classe média, onde o consumo de cocaína e demais drogas era liberado. Relata também como percebia o sumiço dos móveis dessas casas. Móveis trocados por drogas pelo dono.
Viciado em crack, João também passou a roubar pertences de casa para trocar na bocada. Nem roupas tinha mais. Começou a andar todo desleixado, com a aparência física deteriorada a cada dia. A família, a família imaginava que ele estivesse doente. Realmente estava, mas não era uma doença qualquer. Nem perceberam que ela já estava no fundo do poço, no inferno do mundo das drogas. A convivência com bandidos e viciados, fazia com que a morte estivesse presente o tempo todo. O livro é cheio de detalhes sobre esse inferno pelo qual João passou. Eu estou apenas fazendo um breve resumo. João escapou da morte em diversas ocasiões: perseguição policial, tiroteio na favela, arma que falhou ao ser disparada contra seu peito, rachas com o carro e etc. A vida de João era um inferno, mas ele não tinha forças para deixá-la.
João passava a noite com ratos nos becos, usando crack. Usava a droga em lugares escuros e nojentos, que fediam à merda e urina. Era um consumidor industrial da droga, fumando 40 pedras por dia.
Bom, você deve estar se perguntando como João conseguiu se livrar do mundo das drogas. A resposta: família. A família foi imprescindível para que João renascesse. Assim que sua mãe descobriu que ele era um viciado, ela comprou a briga. Passou por cima de tudo para salvar seu filho, inclusive estar ao lado dele enquanto se drogava. Ela ia na favela junto com o filho, com medo de que ele fosse morto pelos traficantes. A família de João, assim que descobriu, o abraçou. Ele passou por diversos tratamentos, ficou em clínicas, mas nada adiantava. Mas João também amava de mais sua família. Foi por causa desse amor que ele decidiu se mudar para uma cidadezinha do interior do Ceará e lá começou sua batalha contra a morte. Nessa parte do livro João nos fala do terror da abstinência, que é quando o corpo começa a doer pela falta da droga. Não só o corpo sofre, mas a mente também, com várias horas de alucinações. Lá no Ceará João ficou dois anos sob os cuidados de pessoas amáveis, que o abraçaram como um filho.

Como podemos perceber neste breve resumo, tudo começa como algo inofensivo e é aí que está o perigo. João começou cheirando benzina. Um simples produto de limpeza foi a porta de entrada para o inferno que viria a seguir. O livro também é cheio de dicas sobre como detectar o uso de drogas por filhos e alunos. João nos fala da mudança de comportamento e dos resquícios que os pais podem encontrar nos quartos, no carro, nas roupas e no corpo dos filhos. É um livro imprescindível para todos que estão envolvidos na luta contra as drogas. Agora vamos conversar com João Blota, o homem que venceu a luta contra o crack. A entrevista se deu pelo chat do facebook e foi devidamente autorizada pelo entrevistado. Ao final da entrevista, colocaremos a referência do livro, para quem quiser ter acesso a esta grande história de vida de um vencedor.  


DANILO SANTOS: João, primeiramente gostaria de agradecer pela entrevista que está me concedendo. Li seu livro e achei linda a sua história de vida, da qual podemos tirar muitas lições. É uma linda história de vida porque apesar de tantas coisas ruins que você passou por conta do contato com as drogas, podemos dizer que você conseguiu escrever um final feliz. Você conseguiu vencer a sua guerra contra o crack. Mas você ainda continua lutando essa guerra, mas agora para salvar outras pessoas que passam pelo mesmo que você passou. Agora você dá palestras de conscientização em várias instituições. Nesta sua luta, você já conseguiu ver resultados positivos, como por exemplo, pessoas deixarem de usar drogas após assistir a alguma palestra sua?
JOÃO BLOTA: Sim, certa vez estava realizando uma palestra com a Radio Jovem Pan e quando terminei, um garoto de aproximadamente 19 anos me procurou e disse que nao iria assistir à palestra, mas nao sabe porque resolveu ficar em vez de sair para fumar crack, e deu seu depoimento ao vivo na Jovem Pan dizendo que iria parar de usar drogas, pois a palestra mexeu muito com ele , principalmente quando falei sobre as mães. Nao sei se ele realmente parou,  mas naquele momento ele parou para pensar e isto faz uma grande direfença.
DANILO SANTOS: No seu livro, você deixou seu E-mail na orelha de capa. Após as vendas do livro muitas pessoas entraram em contato, como usuários ou familiares de usuários de drogas? E quando você lê esses e-mails você consegue perceber semelhanças com o seu passado?
JOÃO BLOTA:  Recebo muitos emails de todo o Brasil. São mães, pais, familiares e amigos pedindo socorro, querendo uma orientação. O problema das drogas só muda de endereço e personagem.
DANILO SANTOS: No livro você diz que encara a luta contra as drogas uma missão. Durante esses anos em que você está na luta, você já foi hostilizado publicamente por adeptos da legalização da maconha?
JOÃO BLOTA:   Realmente esta é a missao da minha vida. Talvez por isso nunca fui hostilizado. Não sou contra as drogas porque estudei, mas sim porque passei na pele e isto e muito forte.
DANILO SANTOS: Você considera o excesso de liberdade que os pais dão aos filhos uma das causas que levam crianças e adolescentes a entrarem no mundo das drogas? Quais as dicas que você dá aos pais e professores para que os mesmos possam detectar o problema antes que ele se torne crônico?
JOÃO BLOTA: Amor! Atenção! Estar presente no dia a dia, enfim, a droga sempre preenche os espacos vazios e se não houver espaço ela não entra!
DANILO SANTOS: Você considera o papel da religião um grande auxílio na luta contra as drogas?
JOÃO BLOTA: Não !Religião não! DEUS  sim, a única forma de combater a droga é AMOR, por isso a mãe dificilmente desiste do filho, pois não existe amor maior no mundo que o amor de uma mãe!
DANILO SANTOS: No livro você diz que o amor à família foi fundamental para que você deixasse o crack. Neste sentido, o que você tem a dizer para os familiares que sofrem por algum viciado em seu seio? O que você tem a dizer aos pais de filhos viciados?
JOÃO BLOTA: A família é o porto seguro que você pode voltar, o que posso dizer aos pais e que não abandonem seus filhos mesmo que tudo pareça perdido , e para os filhos viciados o que posso dizer é que no final você vai ver que sua mãe foi a única que ficou! Então pensa na sua mãe antes que seja tarde!
DANILO SANTOS: João, mais uma vez gostaria de agradecer por me ceder esta entrevista. Se você quiser deixar seus contatos para que os leitores interajam contigo, esteja á vontade. Seu livro é de grande ajuda para toda a sociedade. Muito obrigado!
JOÃO BLOTA: Danilo eu que agradeço esta oportunidade. Meu email é joao.blota@gmail.com e gostaria de dizer que sou eu quem agradeço cada pessoa que me procura, pois assim posso dar mais um passo na missão que Deus me  concedeu.

BIBLIOGRAFIA

BLOTA, João/ JÚNIOR, Rafael. Nóia- o poder tentador de nossas fraquezas. São Paulo/SP: Editora 300, 2009.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

MEMÓRIAS DO BAIRRO DO CRUZEIRO- CAMANDUCAIA/MG (TCC COMPLETO PARA DOWNLOAD)

Finalmente tomei a decisão de disponibilizar a minha pesquisa integralmente neste blog. Após palestrar sobre a minha pesquisa em algumas escolas do município de Camanducaia, gostaria que todos os camanducaienses tenham acesso a este inédito trabalho. Para professores de História, ele é imprescindível em sala de aula. Para amantes do conhecimento, ele é imprescindível para o desenvolvimento de uma mentalidade mais crítica sobre a nossa cidade. 

No trabalho em questão, não abordei exclusivamente o bairro do Cruzeiro. Fui além. No capítulo I, faço uma análise crítica do desenvolvimento da memória oficial camanducaiense, indo buscar fontes do início do século XX. No caso, derrubamos alguns mitos que nos foram ensinados nas escolas, tais como aquela velha história de que Camanducaia era o símbolo do progresso e que tal progresso servia à coletividade municipal. Para derrubar este mito, apontei as incoerências dos próprios documentos oficiais, produzidos pelos memorialistas. Depois trouxe à tona versões e vozes até então silenciadas. 

No capítulo II analisei as narrativas de história de vida dos agentes sociais que viveram nas zonas rurais. Fiz uma análise da transição de uma economia de subsistência para a capitalista, abordando as mudanças de mentalidade e as relações de trabalho entre proprietários rurais e colonos. Neste sentido, contextualizamos as mudanças de conjunturas econômicas e sociais das décadas de 1950/60/70. Mudanças que levaram aos deslocamentos de trabalhadores rurais para o perímetro urbano. 

No capítulo III, analismos as narrativas de história de vida dos moradores que nasceram no bairro, confrontando tais narrativas com as dos moradores mais velhos. O capítulo em questão tem como principal objetivo a análise do conflito de gerações, no qual há uma luta silenciosa por uma identidade coletiva do grupo analisado. 

Abaixo, os links para o download.






segunda-feira, 2 de setembro de 2013

QUANDO A POLÍTICA SE TORNA EFETIVAMENTE PÚBLICA: o medo da classe política pela popularização da informação.

Camanducaia foi uma das cidades sul-mineiras em que podemos dizer que a imprensa teve seu auge. Foram dezenas, senão centenas de jornais já impressos por aqui, fato até lembrado pelo memorialista Benedito Silva Santos no seu livro "Fragmentos da História de Camanducaia." Sabemos da existência dos jornais que eram impressos aqui porque temos colecionadores de acervos que pesquisam sobre o tema, citando aqui o Sr. Jaime Pina, que está prestes a publicar um riquíssimo trabalho sobre o assunto. Para mim que sou historiador, um trabalho como o do Sr. Pina será de uma fundamental importância, principalmente para me aprofundar mais no entendimento das estruturas políticas em sua diversas temporalidades. Durante a minha pesquisa, tive pouco contato com materiais relacionados à informação pública, como jornais e periódicos. Muitos colecionadores restringem o acesso. Mas a pergunta é: desde quando a informação é pública?

Entendendo-se público como domínio de todos, será que as informações que partem do que se entende por "oficial" é de domínio coletivo? Logicamente que é público só na teoria. Vamos analisar o por que. 

Atualmente nós opinamos pelas redes sociais. Nós discutimos, xingamos, denunciamos e etc, porém para a classe política, só é válida a opinião que sai nos jornais. Só é válida a opinião que é oficial. Hoje, qualquer cidadão com acesso à internet pode criticar o vereador, o prefeito, o deputado, até o presidente da República. Se você tem o dom de opinar coerentemente, você é um perigo para aquele vereador que só opina no meio oficial. Se fosse na época em que o coronelismo vigorava, com certeza  seria um ótimo candidato a amanhecer com a boca cheia de formiga. Vamos fazer uma breve comparação do passado com o presente.

Na década de 1930, eclodiu em Camanducaia uma guerra entre duas famílias oligárquicas: os Dantas e os Escobar. Os Escobar mandaram efetivamente da primeira década até a década de 1930. Com a mudança conjuntural relacionada à Revolução de 1930, os Dantas começaram a ascender politicamente até derrotarem os Escobar em 1937. Neste período não havia Lei. Camanducaia era uma terra de ninguém. Pessoas eram assassinadas em praça pública por bandoleiros patrocinados pelos que hoje são considerados heróis segundo a História Oficial. O crime era oficial. A morte era pública. 

Neste período, haviam dois jornais nos quais situação e oposição se vociferavam reciprocamente: "A Defesa", dos Escobar, e a "Folha do Povo", dos Dantas. Fazendo uma analogia, podemos dizer que esses jornais era como o facebook de hoje. Era onde os políticos lavavam a roupa suja. Mas continuando na analogia, há uma pequena diferença: hoje qualquer um tem livre acesso de opinião, enquanto que naquela época, só quem tinha o poder nas mão podiam opinar. A maioria do povo era analfabeto e não votava. Quando um analfabeto votava, era por causa das fraudes eleitorais que originaram os currais eleitorais, ou porque aprendia a assinar o próprio nome. Portanto, se você vivesse naquela época e você fosse um analfabeto, sua opinião não faria diferença alguma. Você não teria a quem recorrer, a não ser à sua própria arma. Tenho algumas fontes aqui que não postarei no blog porque vou usá-las no mestrado, mas elas se referem a este período sem Lei em Camanducaia. O que vou postar, são alguns fragmentos do jornal "A Defesa" para que vocês tenham um pouco de noção de como era o controle da opinião e como era violenta a política camanducaiense. Num destes recortes, vocês poderão ver até a citação do nome de um capanga e constatar que até as praças públicas não eram tão públicas assim.

  

Como podemos notar, a informação não era pública e muito menos democrática. Os políticos apenas dava a sua versão dos fatos e ninguém mais além deles tinha poder em fazê-lo. O que podemos concluir, é que em Camanducaia nunca tivemos, ou pouco tivemos, liberdade de expressão. Os jornais, como sabemos, são patrocinados por comerciantes ou pelos próprios políticos. Portanto, sempre haverá uma mão invisível nas informações que você lê. Por isso há que se ter um raciocínio crítico ao analisar a linha editorial do jornal, a quem ele se destina, qual sua ideologia, quem o financia, quem ele exalta, em quem ele bate e etc. 

Neste sentido, com a tecnologia e a Globalização, o poder sobre a informação ficou mais descentralizado. Um blog como este, não precisa de nenhum patrocinador e não é alvo de nenhuma censura. Já os jornais, estão à mercê de perderem patrocínio, por isso os políticos temem a opinião que você dá nas redes sociais. Eles não podem fazer nada, por isso nem comentam, pois não querem gerar polêmicas que afetam sua imagem ou seu marketing político. Eles se sentem mais à vontade nos jornais, já que não é qualquer um que pode publicar artigos ou ter o direito de resposta. Aí é que começamos a entender o por que de suas opiniões serem exclusivamente oficiais. Se você quiser ser ouvido na Câmara de Vereadores, você tem que se inscrever dois dias antes e se tiver vaga, você tem direito a falar por 15 minutos. Só que qual é a força da sua opinião na Câmara? R: NENHUMA! Sabe por que? Porque você só meia dúzia de pessoas irão te ouvir. Neste sentido, ao não consegui difundir a sua crítica para um grande número de pessoas, sua opinião não afetará em nada a imagem de um político corrupto, por exemplo. Por isso sou totalmente favorável a uma maior descentralização informativa relacionada à política e aos políticos. Poderíamos pensar no caso de transmitirmos o áudio da reuniões ordinárias numa rádio local, por exemplo. O que devemos fazer, é pensar em um modo de tirarmos os políticos desta redoma em que vivem. Político que tem medo de rede social, não pode ser levado a sério, pois todos nós, independentemente de qual área profissional sejamos, devemos nos adaptar às mudanças. Eu uso o facebook para dar aulas particulares de História, por exemplo. Por que eu, enquanto vereador, não poderia responder às suas indagações pelo meio virtual? Se eu considerar válida exclusivamente a opinião que é dada na Câmara, eu com certeza parei no tempo. 

Bom, galera, não vou me estender mais porque não quero fazer um texto longo e complicado. O que quero que vocês entendam é que a informação é uma arma poderosa se bem usada. Não podemos mais permitir que continue sobrevivendo em Camanducaia uma mentalidade arcaica em relação à política. Abraços a todos!